[17 de maio de 2009]

Capital Social e Redes Sociais na Internet

networkmap350.gifDesde 2005 eu venho escrevendo sobre a importância do estudo do capital social para compreender as redes sociais na Internet. Por que? Defendo que o valor social da adoção de determinados comportamentos e tecnologias é sempre levado em conta pelos atores das redes sociais para determinar seus próprios comportamentos. Por conta disso, vou fazer alguns apontamentos sobre coisas que venho pensando atualmente.

O conceito de capital social, no entanto, é algo complexo e cheio de meandros. De um modo geral, os teóricos que trabalham com a idéia focam o conceito como produto do pertencer a um grupo (rede) de atores (Bourdieu, por exemplo) e aqueles valores que dali decorrem. Ou seja, todos os valores decorrentes da associação com um grupo seriam considerados capital social (o que, de certa forma, deixa o conceito um tanto o quanto abstrato). Embora várias tentativas de operacionalizar o conceito tenham sido feitas (vide Bertolini e Bravo, por exemplo), não há uniformidade na literatura quanto a isso e, muitas vezes, o capital social se confunde com o capital humano. O que é um tanto o quanto esperado, uma vez que os valores que os indivíduos carregam podem tornar-se valores da rede quando estes estão associados. Por exemplo, vamos imaginar que temos um ator com grande conhecimento em uma determinada área. Esse conhecimento passa a ser acessível a outros atores quando aquele torna-se parte da rede. Outro problema comumente discutido são as formas de apropriação desse capital. Enquanto para uma corrente o valor é unicamente social e só pode ser apropriado enquanto social, para outra, o capital social pode ser apropriado pelos atores e transformado em outras formas de capital (vide a discussão que Lin faz).

Formas de Apropriação do Capital Social em Redes Sociais na Internet

No meu trabalho, tenho procurado mostrar que as motivações dos atores para usar a tecnologia passam também por essas percepções e que a apropriação individual dos valores sociais é uma dessas formas. Assim, as formas de capital social que um ator vê na rede podem influenciar seu uso e sua adoção da tecnologia que a proporciona. Procurando discutir um pouco como esse capital social pode aparecer em redes sociais na Internet, temos alguns valores que são comumente referenciados. Vou fazer aqui uma tentativa de sistematizar esses valores.

  • Valores Relacionais: São aqueles relacionados com a construção da rede em si. Estão focados em criar, aprofundar e manter os laços sociais. Essas formas de capital social são importantes porque auxiliam na manutenção da estrutura social.

Esses valores podem ser apropriados pelos atores de várias formas. Por exemplo, um ator que subverte o funcionamento da rede para se tornar popular está apropriando o capital social relacional (centralidade). Com isso, o ator consegue tornar-se mais central na rede (tornar-se um conector). Vemos isso acontecer com freqüência no Orkut. Outro exemplo, diferente, é o caso das trocas de links no Fotolog ("me add que eu te add"). Neste caso, os atores negociam as ações, de forma a tornar-se mais visíveis com a cooperação dos demais (visibilidade). Outra forma de valor relacional apropriado é ainda o uso das ferramentas tecnológicas para manter ou recuperar os laços sociais (como Ellison, Steinfield e Lampe defendem no seu artigo sobre o Facebook). Aqui, vemos que os atores utilizam a ferramenta para manter uma rede social que, de outra forma, não poderia ser facilmente mantida (manutenção).

  • Valores Informacionais (ou cognitivos): São aqueles relacionados com aquilo que circula na rede, mas que não estão diretamente relacionados com sua manutenção. Essas formas de capital social são importantes porque fazem circular os valores na estrutura social e só pode acontecer quando a primeira forma de valor está presente.

Esses valores também podem ser apropriados de formas diferentes. O empenho de um determinado ator em obter informações e divulgá-las a sua rede social, por exemplo, enquanto foca esse tipo de valor traz para o ator reputação. Vemos isso com mais clareza nos usos do Twitter e dos blogs. O gerenciamento dessas informações que circulam, proporcionado pela mediação tecnológica, também pode acarretar em modos de criar identidade e identificação para os atores (muito comum no Fotolog). Através da reputação, este ator pode ter acesso a outras formas de capital. Outro modo de apropriar esse tipo de capital é obter as informações importantes através da consulta à rede (conhecimento).

O Capital Social na Internet

Essas apropriações não são independentes. Enquanto as do primeiro grupo são facilitadas pela mediação tecnológica, as do segundo são unicamente decorrentes dos modos de gerenciar as primeiras. Com isso, quero dizer que a mediação da Internet parece permitir formas de apropriação do capital social mais complexas e especializadas. A mediação da Internet, em última análise, permite ao ator um maior controle desse capital, que de outra forma não estaria tão facilmente acessível. E a mediação da Internet também permite a criação de novas formas de apropriação individual. A cada nova tecnologia de comunicação mediada pelo computador, menor investimento é exigido de um ator para ter mais acesso aos valores da rede. Isso implicaria, de uma certa forma, em um menor comprometimento social e em um maior dispêndio de tempo para os atores. Ou seja, a Internet parece, como já mostraram Wellman e Quan-Haase lá no princípio dos estudos sobre o assunto, estar aumentando o capital social mas, entretanto, aumentando também formas de apropriação desse capital, mais focadas nos laços fracos que nos fortes.

Considerações para futuros trabalhos

Acho que dentre as coisas que precisamos observar nas redes sociais hoje estao esses elementos: Até que ponto a mediação da Internet auxilia no comprometimento social dos atores? Ao tornar o capital social tão facilmente apreensível, com um mínimo investimento, será que não está acontecendo uma desvalorização deste? Há diferenças na apropriação desses tipos de capital dentre os vários níveis de idade/sexo/inclusão dos atores sociais? Tenho a impressão de que, enquanto os adolescentes parecem mais focados na transposição do capital social para os laços fortes (ou seja, utilizando a mediação para aprofundar e manter os laços sociais, de forma relacional), os adultos estão mais focados na apropriação desse capital a partir dos laços fracos (de forma mais informacional), mais genérica e menos social. Será que podemos pensar assim? Como a mediação da rede altera as percepções dos atores de valor/investimento/lucro social? Como pensar a apropriação capital social do ponto de vista da mobilização coletiva na Internet? Todas essas questões estão abertas e precisam de mais estudos para aprofundá-las.

Textos citados:

Bertolini, S. e Bravo, G. (2000) Dimensioni del Capitale Social. DSS PAPERS SOC 4-00.
Bourdieu, P. (1986) The forms of capital. In J. Richardson (Ed.) Handbook of Theory and Research for the Sociology of Education (New York, Greenwood), 241-258.
Lin, N. Social Capital. (2001) A Theory of Social Structure and Action. Cambridge University Press: 2001.
Quan-Haase, A. e Wellman, B. (2002) How does the Internet Affect Social Capital? In: Marleen Huysman and Volker Wulf, (Eds.). IT and Social Capital. Draft 4: Tuesday, November 12, 2002.

Update: Já falei no Twitter e esqueci de comentar aqui: Para quem se interessa pelo assunto do capital social, tem um site ótimo com leituras básicas e avançadas e muitas coisas online (não só focado na Internet), o Social Capital Gateway.
por raquel (09:30) [comentar este post]


Comentários

danilo (maio 17, 2009 11:49 AM) disse:

A idéia de mensurar o comportamento de grupo nas redes sociais é ótima, mas seu texto só me permitiu a leitura até o terceiro parágrafo. Não sei qual é a proposta desse texto, mas decerto não é a ampla leitura.
Mas a idéia do trabalho, assim como a de se estabelecer métricas para as redes sociais, é fundamental para a profissionalização que vem ocorrendo.

raquel (maio 17, 2009 3:48 PM) disse:

Oi Danilo!
O texto foi pesado mesmo, acabou não saindo tão bom. A idéia era discutir de um ponto de vista mais acadêmico o conceito. Não estou propondo métricas - embora sei que esse é um desejo importante do mercado - mas pensando um pouco sobre motivações/usos das tecnologias. :) Thanks pelo comentário.

Augusto de Franco (maio 18, 2009 11:29 AM) disse:

Bem, vou começar a aqui a "invadir sua praia", Raquel, he he (ainda que o espaço para comentários não ajude, é muito pequeno). Na verdade é a "nossa praia", então 'invasão' é apenas um termo jocoso.

1) Sob o conceito de ‘capital social’. Muitas vezes se confunde com o conceito de ‘capital humano’. Quanto isso acontece, ele – o conceito de capital social – não serve mais para nada. Achar que o capital social pode ser inferido de alguma forma da composição de “vários capitais humanos” é a mesma coisa que não-entender o que significa ‘rede social’ (ou seja, o ‘social’, que não é a coleção dos indivíduos e sim a configuração complexa de suas relações, vale dizer, das fluições, não somente no que concerne às conexões – arestas em SNA –, mas também no que diz respeito aos nodos ou vértices, idem). Tal confusão ocorre quando não compreendemos o conceito de capital social tal como foi formulado – com o sentido que atualmente atribuímos-lhe – por Jane Jacobs (1961): capital social não é algo produzido pelas redes sociais e sim um sinônimo para rede social (quando esta última é vista do ponto de vista dos recursos extra-econômicos envolvidos – daí a metáfora ‘capital’ – ou das variáveis que comparecem na equação do desenvolvimento). Uma leitura no clássico “Morte e vida das cidades americanas” é fundamental para compreender esse genos do conceito.

2) Sob a possibilidade de apropriação do capital social. Nan Lin voou um pouco na metáfora (embora tenha compreendido aquilo que Bourdieu jamais compreendeu: a rede). É claro que capital social pode compensar a falta de outros tipos de capitais, mas nunca pode se “transformar” em outra coisa (que ele não é). A metáfora, urdida do ponto de vista do desenvolvimento, faz sentido apenas em um contexto sistêmico no qual cada uma das variáveis (capital financeiro e capital físico – os capitais propriamente ditos, econômicos + capital natural + capital humano + capital social, os três últimos como externalidades) flutua em intervalos ótimos, quer dizer, em intervalos em torno de um valor ótimo relativo. Assim, por exemplo, embora tenha mais estoque (ou fluxo) de capital humano do que o Brasil, a Argentina não pode ser considerada mais desenvolvida, pois tal diferencial não compensa seus baixos valores de capital social (por motivos que não vamos comentar aqui). Bem, mas ainda sobre a questão da ‘apropriação’, é tão possível alguém se apropriar de capital social quanto é possível se apropriar de uma rede social (insisto: são exatamente a mesma coisa, quer dizer, olhares diferentes, a partir de pressupostos epistemológicos distintos, sobre o mesmo fenômeno: fluição, comportamento do multiverso chamado de espaço-tempo dos fluxos, a ‘r-brana’, he he, onde as redes existem propriamente como tais). Abstraindo no limite: se alguém se apropriar ou privatizar capital social ocorre aquilo que Diego Gambeta percebeu nas formas de familismo amoral (como a Máfia): ele estraga! Por isso se diz que capital social é um bem-público, naquele sentido original que os gregos atribuíram ao conceito quando abriram a brecha democrática nos sistemas hierárquico-autocráticos.

Continua... (Tenho que descer a serra agora).

Augusto de Franco (maio 20, 2009 11:44 AM) disse:

Continuando (agora de Curitiba)...

3) Sobre a Internet e o incremento do capital social. Parece evidente que a Internet aumenta o capital social na medida em que seu padrão de organização é o de rede (em alguns casos, com topologia mais distribuída do que centralizada - como nas blogosferas agregadas e nas plataformas de netweaving). Isso faz referência ao primeiro ponto acima: capital social = rede. Quanto à 'apropriação' (segundo ponto acima), há aqui - a meu ver - um deslizamento do conceito. Se apropriar de valores ou conhecimentos é, de certo modo, compartilhá-los (em redes isso é função da conexão e não da obstrução, da separação e da exclusão associadas ao ato de apropriação). Compartilhar, portanto, não significa propriamente se apropriar (no sentido de se apossar de um recurso estabelecendo um diferencial de acesso em relação a um conjunto qualquer de sujeitos). E o fato desse compartilhamento (aqui chamado de apropriação) se exercer por meio de "formas... mais focadas nos laços fracos que nos fortes", é bom do ponto de vista das redes distribuídas e só reforça a hipótese de que os laços fracos são desproporcionalmente responsáveis pela diminuição do tamanho do mundo (como mostrou recentemente o experimento de Watts et al. sobre os graus de separação)e - portanto - sobre a produção de capital social. Sim, são os laços fracos (não os fortes, não os parentais ou consaguíneos, os funcionais ou hierárquicos) que produzem crunching ou seja, empoderamento (um dos fenômenos acompanhantes da geração de capital social).

Continua... (Tenho que ir trabalhar agora).

Tico Esteves (maio 21, 2009 1:49 PM) disse:

Olá Raquel, tudo bem?

Cheguei ao seu blog através da Master New Media

Confesso que esse seu texto me deixou um pouco tonto! Não pelo texto em si, mas pelo ponto abordado. Nunca tinha prestado atenção nas redes sociais dessa forma.

Já andei "passeando" pelo seu blog e quero te dar os parabéns pela qualidade dos textos viu? Ganhou mais um leitor! ;)

Um abraço!

Augusto de Franco (maio 22, 2009 10:52 AM) disse:

Retomando (já do alto da Mantiqueira):

Conquanto possam parecer surpreendentes, minhas observações, feitas aqui a guisa de conclusão, são as seguintes:

1 – Não podemos usar o conceito de capital social como se fosse um recurso a ser capturado nas redes sociais. Redes sociais não são geradoras de capital social nem uma espécie de reservatório desse recurso, são o próprio capital social (na razão direta dos seus graus de distribuição e conectividade).

2 - Capital social, stricto sensu, não é apropriável (no sentido de tornar próprio algo que não o era). Não há propriamente ‘apropriação’ do capital social nas redes ‘mediadas pela Internet’, ou – se houver – isso se dá na razão direta dos graus de centralização dessas redes (ou seja, na medida de não-rede). O que há é apropriação de informações, mas e daí?

3 - Laços fracos não são menos ‘sociais’ do que laços fortes. É justamente o contrário, tomando-se o conceito de ‘social’ pelo que ele realmente tem de específico e distintivo do capital humano (i. e., não coleção de indivíduos e sim padrões formados por configurações complexas de fluições: indivíduos viram pessoas quando pessoas se conectam com pessoas). Recupera-se aqui, à luz da visão das redes, aquele especialíssimo sentido de social com o qual trabalha Humberto Maturana.

Creio que temos aqui alguns pontos para uma boa discussão, Raquel. Esse é o objetivo da meu passeio pela sua praia.

Jorge Rocha (junho 3, 2009 9:27 PM) disse:

estou de olho em tudo isso, para melhor compor aquilo q tenho chamado de capital de influiencia, e tenho uma tendencia a concordar com varios pontos do augusto de franco. deixe-me voltar ali para a prancheta de trabalho q ja retorno.

Christiana Freitas (junho 23, 2009 11:02 AM) disse:

Oi Raquel,
Descobri o seu trabalho no congresso da LASA recentemente, no Rio. Fiquei super feliz quando vi uma pesquisadora estudando questões tão parecidas com as que me interessam e utilizando os conceitos que uso há muitos anos (da Análise de Redes Sociais e, agora, da Escola-de-Redes!). Parabéns pelo livro e espero que a gente se comunique. No momento, minha pesquisa é sobre o Portal do Software Público Brasileiro, uma iniciativa nacional que estabelece uma rede de produção compartilhada de conhecimento e tecnologia. O site é www.softwarepublico.gov.br. Então... é isso! Gostaria do seu email para trocarmos idéias. Um abraço!

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