[08 de julho de 2011]
Google+: Algumas impressões
Graças ao Victor Ribeiro ganhei um convite para o Google+ há alguns dias e pude experimentar um pouco mais da ferramenta e dar uma bibilhotada. Devo dizer que, no início, não fiquei muito impressionada. Mas com o uso nesses últimos dias, pude perceber vários pontos fortes e interessantes.
Pontos Interessantes
O primeiro ponto que me chamou a atenção é a simplicidade. Ao contrário do Facebook, megapoluído, e do Orkut, idem, o Google+ é muito, muito simples. O que me faz pensar em uma ferramenta que ainda está em uma versão beta, e que tem um certo "caráter coringa", ou seja, capaz de ser adaptado para diferentes apropriações. É um approach diferente da maioria das ferramentas do gênero. No entanto, para que as pessoas apropriem a ferramenta é preciso que tenha algum valor sendo contruído ali. Esse valor me parece indefinido. De um lado, o sistema tem um foco social bem forte (praticamente central): adicionar amigos e conhecidos e classificá-los. De outro, tem um certo foco informacional (é possível direcionar para os amigos o resultado de buscas, a publicação de imagens e o conteúdo em geral). O foco social é reforçado pela melhor inovação do sistema (que o Facebook correu para copiar), o Hangout, uma espécie de chat coletivo por vídeo. Não só é rápido (ao menos, com pouca gente usando o G+), como é bem eficiente e estável.
Um segundo ponto que me chamou a atenção é a possibilidade de classificar os amigos em diferentes círculos. Para quem não viu o surgimento dos sites, essa possibilidade foi criada posteriormente pela maioria das ferramentas. Afinal, no início, só era possível acrescentar "amigos". As práticas de classificação social, entretanto, não são tão simples. Deixando que as pessoas criem seus próprios círculos pode ser uma sacada legal, pois permitem que percepções particulares dos grupos sociais sejam construídas.
Alguns Desafios
Entretanto, há vários desafios. Entrar num mercado já tão saturado sem nenhuma grande inovação é um risco grande de nascer defasado. E o G+ não traz exatamente nenhuma inovação ou um foco específico que auxilie a apropriação. Assim, acho que um dos primeiros desafios que a ferramenta vai enfrentar é, justamente, essa falta de foco. Se o foco estivesse bastante firme na informação, a possibilidade de que as pessoas te sigam (como no Twitter) sem a tua autorização é ok. No entanto, com o foco dividido no social, essa estruturação das redes é muito mais complicada. Nem todos querem estar presentes em círculos que não lhes agradam e mesmo a possibilidade de publicar informações para círculos errados pode ser desastrosa. Enquanto as ferramentas com um foco mais social têm a presença dos laços fortes como extremamente relevante (gerando valores como a manutenção de laços, a brincadeira e etc.), as ferramentas mais informativas geram valor, justamente, na presença massiva dos laços fracos (Granovetter já mostrou isso em seu trabalho de 1973: são os laços fracos que geram informação nova para os cluters). Os dois valores juntos, de forma totalizante, parecem ser complicados de ser igualmente disponíveis na mesma ferramenta.
No Orkut, por exemplo, a presença massiva dos laços fracos acabou minando o valor do sistema e gerando preocupações cada vez maiores para com a privacidade. Ou seja, quanto mais gente e mais clusterizado o grafo social lá, mais pessoas tinham acesso às informacões umas das outras e problemas foram surgindo. Enquanto há pouca gente no G+, esse desafio ainda não aparece. Mas quando o site estiver sendo usado por muita gente, há interesse em ter que dividir cada informação por círculo e ter que classificar cada pessoa para que nem todos tenham acesso às informações "sociais"? Por outro lado, o caráter informativo é relevante a partir do momento que estou recebendo informacões diferentes daquelas que circulam no meu grupo e que eu posso dividir com eles. Mas até que ponto é interessante adicionar pessoas aos meus círculos simplesmente para receber informação, quando o Twitter já faz isso e de forma mais dinâmica?
Outro desafio é a integração. Do jeito que está, o G+ é uma "nuvem" social por cima dos demais serviços Google e, embora a integração não seja completa, é possível já usar vários dos serviços via G+. Essa integração está sendo feita de modo cuidadoso, o que é esperto dado o problema que foi o Buzz. De novo, a superintegração de coisas Google é preocupante com relação a privacidade, a publicização de informações que não desejamos que sejam publicadas e ainda não sabemos disso. Por exemplo, eu mantenho poucas pessoas nos meus mensageiros, porque preciso trabalhar e não posso ficar atendendo a todos o tempo todo. Portanto, não é do meu interesse ficar online para todos os meus círculos do GTalk cada vez que entro no Google+. É um problema de integração.:)
Um terceiro desafio é o crescimento. Historicamente, uma das coisas que minou o Orkut foi a adoção massiva e rápida por um único país (no caso, o Brasil). Lidar com o crescimento da ferramenta significa também lidar com diferenças lingüísticas e culturais, que vão colidir com a adoção. Além disso, ferramentas que demandam rapidez, como o hangout podem ter problemas com o crescimento.
Estou bastante curiosa para ver como está crescendo o grafo social no G+ e que tipo de apropriações estão aparecendo ali. Esses primeiros momentos são essenciais para medir que tipo de futuro a ferramenta terá. :) Até agora, a mim parece que os desafios são grandes. Mas a apropriação pode, muitas vezes, mudar completamente a ferramenta. Vamos esperar para ver.
por raquel (14:03) [comentar este post]



Comentários
Gustavo Freitas (julho 8, 2011 6:05 PM) disse:
Raquel,
os círculos pra mim são o ponto forte dessa rede social nesse primeiro de testes. Muito interessante poder separar as pessoas em vários círculos sociais, assim como fazemos na vida real. Está certo que as listas do Facebook também servem pra isso, mas não conseguimos no Face enviar um mensagem apenas por elas, ai teríamos que utilizar os grupos e muitos se sentem ofendidos por serem incluídos em grupos sem o seu consentimento.
parabéns pelo artigo, abraço.
Rudá Almeida (julho 8, 2011 6:11 PM) disse:
Artigo sensacional, sinto falta de mais análises sérias e profundas sobre as redes sociais, geralmente é só tutorialzinho ou noticia gringa traduzida. Adorei o artigo, vou ler mais do seu site.
Si (julho 9, 2011 11:40 AM) disse:
Adorei! Muito perspicaz a visão, principalmente da privacidade. Foi a primeira coisa que me chamou atenção na ferramenta. Fiquei pensando que a classificação em grupos é uma boa saída. Como no facebook, o meu perfil é liberado para amigos, conhecidos, alunos, família, empresas, etc. Isso, às vezes, é um problema... Muito bom o texto!
Paulo Colacino (julho 9, 2011 1:06 PM) disse:
Raquel
A "privacidade digital" é algo que terá que ser resolvido não só por ferramentas mas pela própria educação/cultura da sociedade.
Fazendo uma analogia. Antigamente todos tinham seus nomes nas listas telefônicas, com endereço e número. Isso não seria um problema de privacidade? Então legislaram para que as pessoas pudessem solicitar a retirada de seus dados da lista. Aí então a lista começou a cair em desuso pois já não se encontrava mais as pessoas.
Com os celulares nem lista hoje temos. Se quiser achar alguém vai ter que ser pela web.
A Internet tem a característica intrínseca de ser um grande banco de dados. Cabe a cada um selecionar o que vai colocar nesse banco de dados.
Você pode ter um perfil para participar de uma comunidade e outro para publicar suas fotos e vídeos, preservando assim sua privacidade. Porém eu vejo que o anseio da maioria das pessoas (e talvez os jovens principalmente!) não é de PRIVACIDADE e sim de EXPOSIÇÃO quase que total e irrestrita, fato que tem causado problemas à própria segurança dessas pessoas.
A estória nos mostra que todo movimento exagerado acaba tendo suas correções. As pessoas aos poucos vão percebendo até que ponto querem se expor e nisso a tecnologia vai evoluindo para ajudar.
Concordo contigo que a integração das ferramentas precisa ser cuidadosa, mas o seu uso "idem". O Orkut como vc citou se transformou em uma fonte de informações volumosa da vida de qualquer pessoa não só por deficiências da ferramenta mas pela ação dos próprios usuários que abriram suas vidas publicamente. A rede tem disso. Por não estarmos fisicamente no mesmo local as pessoas se sentem mais a vontade para abrir suas vidas. Ninguém por exemplo iria expor seu corpo em qualquer lugar, mas acabava publicando fotos assim no Orkut.
Enfim a tecnologia é resultado da evolução das técnicas, do software, do hardware e da criatividade de quem as projeta. Quase sempre a sociedade leva um tempo para "apropriá-la" da melhor forma.
Por fim, concordo contigo que não houve nenhuma inovação ou um rompimento com o que já existe e sim pequenas melhorias (interface, uso, video-conferência).
Para o Google acho que a grande melhoria vai ser a integração das ferramentas, algo que eles já tentam há algum tempo e até hoje não tinham algo palpável. A Google Home foi uma tentativa que não deu certo.
Abraços
Paulo Colacino
lesilva (julho 11, 2011 8:48 AM) disse:
Raquel, eu acho que no futuro o Google consiga amarra bem o Orkut com o G+ e o pessoal do Orkut começar a usar com qualidade a rede social. O que vocês acha?
marcelo capillé (julho 11, 2011 5:52 PM) disse:
estou também bastante curioso para ver onde isso vai dar, mas usando exatamente os pontos que você focou, acho que temos grandes chances de finalmente podermos utilizar uma "plataforma de integração pseudo-social", e não só mais uma "rede social"...
brinco com o pseudo-social porque tem tudo pra ser várias coisas em uma só, e muitos pseudos-qualquercoisa vão ter sua chance de interagir somente nas camadas que preferirem...
creio que justamente por ter círculos, hangout, poder "circular" alguém sem ser "circulado" por ela, além de juntar seus post de todos os lugares em um só, com integração entre os produtos Google, teremos facilmente condições no futuro de expôr documentos do GoogleDocs e nossos Calendars dentro do circulo que nos convenha...
ou seja, se juntar Google+ com Gmail, Gdocs, GBlogs e Gphoto, teremos uma plataforma bem "circulada"...
raquel (julho 12, 2011 11:02 AM) disse:
Oi Marcelo :)
Pois é. Ao mesmo tempo, toda essa integração é o advento de um único grupo com um controle imenso sobre essa quantidade de dados pessoais e de difusão de informações. Dados preciosos para a publicidade e para outras análises. Será o advento do big brother mesmo?
raquel (julho 12, 2011 11:04 AM) disse:
Não sei. Acho que se o G+ realmente emplacar, a tendência é o suporte pro Orkut reduzir...
raquel (julho 12, 2011 11:06 AM) disse:
Paulo, vc tem razão na questão da privacidade. O grande problema é que é diferente a percepção de privacidade qdo vc é um na multidão e quando alguém pode buscar seus dados. Acho que é necessário educação, sim, até pq nem todo mundo atina imediatamente as conseqüências de ter a vida narrada na internet. :)
Diego Oliveira (julho 12, 2011 10:20 PM) disse:
Olá Raquel tudo bem? justamente agora que estou na metade do seu livro "Redes Sociais na Internet" parei rapidinho para ler seu post. Acredito que quanto ao G+ so nos resta esperar, não importa o quanto estudemos sobre as redes sociais, elas se fazem por pessoas e não por computadores, e esse é O fator que nos impede de prever o futuro.. Mas na minha opinião falta mais elementos integradores e privacidade para dar certo.
Paulo Colacino (julho 13, 2011 3:01 AM) disse:
Raquel acho que essas ferramentas confundem nossa noção do que é PÚBLICO e do que é PRIVADO.
Talvez os "círculos" ajudem nisso. Mesmo assim tem que usar direito para não correr o risco de expor o que não devia para todos.
Nossa vida PRIVADA se tornada cada vez mais PÚBLICA a cada passo que damos na web ;)
abraços
pr