[22 de julho de 2005]
Mais sobre Livros
Meu caso de amor com os livros começou com os gibis. Eu era muito pequena e "lia" os gibis do meu pai, e ficava completamente frustrada porque não entendia o que o Pato Donald estava dizendo. Então eu olhava as figuras e inventava a história na minha cabeça. Com uns 5 anos eu queria muito aprender a ler, porque meus livros tinham figuras maravilhosas e eu não conseguia ler nada e meus pais e avós e tios não tinham paciência para a minha sede de leitura e não passavam 8 horas por dia lendo para mim. Mas, nessa época, o colégio não aceitava as crianças na primeira série antes dos 7 anos e eu, na minha enorme frustração, então, inventava as histórias em voz alta e fingia escrevê-las imitando a escrita dos meus pais. Quando finalmente o sistema me deixou aprender a ler, eu já conhecia a maioria das palavras, de tanto olhar pra elas e inventar um significado. Bem, eu lia então livros infantis, especialmente contos de fadas. Mais tarde, passei para o Monteiro Lobato (eu era fã da Emília) e li praticamente tudo o que tinha dele, depois toda a biblioteca e, enfim, com uns 9 ou 10 anos a bibliotecária do colégio guardava os livros novos da prateleira infantil e infanto-juvenil pra mim porque eu já tinha lido todos os outros.
Nessa época começaram a me deixar retirar os livros da estante dos "adultos" porque demorava muito para chegar livros novos e eu pentelhava demais pedindo coisas pra ler. Um dos meus maiores choques foi com os livros "adaptados". Quando eu comecei a ter acesso aos livros "adultos" (não deixavam a gente ir lá olhar) eu comecei a ver que várias histórias que eu tinha lido eram, na verdade, resumos de histórias muito mais legais, que simplesmente não deixavam na estante das crianças porque achavam muito grandes pra nós. Eu ficava com raiva quando descobria que as adaptações, às vezes, mudavam até o final do livro!
Quando acabaram os livros de casa, meu dindo começou a me dar livros do Mario Quintana, Cecília Meirelles e todos os meus poetas favoritos. As pessoas ficavam chocadas de saber que eu, que era uma criança, gostava de poesia. Qual o problema com crianças gostarem de poesia? Meu presente favorito, desde essa época, já eram livros. E por incrível que pareça, apesar de eu ser uma rata de biblioteca, 90% das pessoas que me conheciam insistiam em me dar bonecas, roupas e outros cacarecos, porque, afinal de contas, crianças e livros não combinam.
Então, eu li de tudo. Tudo o que caia na minha mão eu lia. Antes, porque eu não tinha dinheiro para ser muito seletiva e lia o que tinha na biblioteca. Depois, porque eu tinha dinheiro, mas os livros gastavam ele todo. E lendo, eu aprendi a pensar e a ver o que eu gostava e o que não gostava. Que livros precisavam ser saboreados como uma refeição caríssima e que livros podiam ser lidos de forma descompromissada, como um lanche. Que livros tinham sabor amargo e que livros eram doces. Quais livros eu lia no ônibus, e quais eu lia em ocasiões especiais. (É, eu tenho livros favoritos - como pílulas - para todas as ocasiões.)
Meu ponto é que não importa a qualidade do livro. Livros estimulam a leitura. A leitura estimula o espírito crítico, a imaginação, a escrita e o vocabulário. Não importa se as pessoas lêem Dan Brown. Importa que, lendo Dan Brown, talvez um dia elas se interessem por Umberto Eco e comparem e façam seus próprios julgamentos de ambos. Importa que, lendo Harry Potter, as crianças vão aprender que livros não significam coisas chatas e poeirentas, mas conhecimento, aventura e emoção. E talvez um dia, porque elas leram Harry Potter quando tinham 10 anos, elas leiam Ulysses. E assim, todo mundo pode fazer sua própria biblioteca, ter seus próprios livros-pílula para todos os momentos.
Então, ler é bom. Sempre.
por raquel (16:47) [comentar este post]



Comentários
Wagner (julho 22, 2005 5:37 PM) disse:
Eu tive um pouco mais sorte do que tu, no início: minha mãe teve paciência para me ensinar a ler. Quando eu tinha uns 3 anos, era época de campanha política. Eu via as siglas dos partidos nas ruas e perguntava pra ela o que dizia ali, e em pouco tempo eu já gritava os nomes dos partidos enquanto andava de ônibus com a mãe. Depois, ela começou a me ensinar a ler, e com quatro anos e meio eu já lia de tudo. Adorava os gibis da Turma da Mônica, nessa época eu não era muito de Disney. Também tive minhas crises com a "Tia Vera", a bibliotecária do São José, porque eu devorei toda a biblioteca infantil de lá.
Wagner (julho 22, 2005 5:39 PM) disse:
"É, eu tenho livros favoritos - como pílulas - para todas as ocasiões." - RECUERO, Raquel
Tu tem PÍLULAS favoritas para todas as ocasiões? Tu é hipocondríaca? Ou drogada? Nevermind... I don't want to know.
Érico (julho 22, 2005 6:15 PM) disse:
Não, não e não.
Ler nem sempre é bom. A vida é curta e não dá pra perder tempo lendo Sidney Sheldon e Dan Brown. O critério do contraste - é só lendo Harry Potter e Paulo Coelho que a gente vai ver como o Joseph Heller é bom - não vale. Senso estético não se forma só dentro de uma mídia, mas sim através de toda "fenotipagem" a que a pessoa está sujeita: família, sociedade, educação, trabalho, tv, internet e namoradas marcantes. Vou achar "Ulisses" fantástico não só porque passei a vida lendo coleção Vaga-Lume, mas por conta de toda uma abertura de horizontes propiciada pela vida como um todo - não só por uma seção dela, o contato com a literatura.
Ou seja, concordo com o Juremir.
Mas é só minha opinião.
deysi (julho 22, 2005 6:32 PM) disse:
Oi, teacher..depois eu volto aqui pra argumentar..rs!!!Vou arrumar as malas..hauhaua Uma amiga minha disse que teu blog aparece com as letras bem pequenas no micro dela. depois venho aqui..beijinhos!!!
deysi (julho 22, 2005 6:37 PM) disse:
Olha o que tu fizeste comigo, teacher:
Quem matou o Lineu? Não foi a Laura, fui eu! diz:
o final do post dela detonou seus argumentos
Quem matou o Lineu? Não foi a Laura, fui eu! diz:
kkkkkkkkkkkkk
Quem matou o Lineu? Não foi a Laura, fui eu! diz:
ah... eu já gostei dela
Deysi em:hj eu sou desempregada!!!Eeeeeeee diz:
kkkkkkkkkkkkk droga!
Rs..vou lá senão não faço nada aqui..como eu disse, depois eu volto!
Lady A (julho 22, 2005 7:05 PM) disse:
minhas experiência é bem aparecida com a tua e concordo com teu ponto.. bjos
Giselle (julho 22, 2005 7:23 PM) disse:
Ei, Teacher!!
Eu sou a amiga da Deysi, a quem ela se referiu aí em cima... a gente ainda vai travar um duelo, de tanto que ela critica e eu defendo o Harry Potter! *rs*
Concordo com vc quando diz que a "leitura estimula o espírito crítico, a imaginação, a escrita e o vocabulário", e acho que mesmo um livro com pouca qualidade te deixa algum aprendizado, mesmo que esse aprendizado seja a idéia de que vc nunca mais deve lê-lo. *rs*
Ah, os argumentos finais do seu post foram fantásticos! ;)
Beijos!!!
deysi (julho 22, 2005 9:02 PM) disse:
Teacher..eu acho mto legal mesmo que as crianças possam ler um livro como Harry Potter e entender que livros são bons. Acho que estou concordando com isso pq és tu quem está falando (rs!rs!)... Mas concordo com o Juremir quando olho para o lado e lembro que meu primeiro livro foi ?O pequeno príncipe? e de meus coleguinhas foi ?E, agora mãe??(não riam). E eu não sou nenhuma Raquel Recuero (mto longe disso e por isso valorizo mto o q tu escreves, pq sei que falas com propriedade),mas me expresso melhor do que meus coleguinhas. Entende? Talvez se eu tivesse passado minha adolescência lendo Sidney Sheldon..a conseqüência seria catastrófica. Eu lia a coleção vaga-lume e era apaixonada pela Mônica. Até que um dia as revistinhas não eram mais suficientes e fui na biblioteca, com 7 anos ,e minha mãe disse: ?Saint Exupéry vai te mostrar que livros são bons?. Imagina se ela tivesse me largado um..sei-lá-o-quê. Quanto a Monteiro Lobato: meus filhos vão ler ele!! Porque ele sabe escrever...ele sabe! Rowling é enfadonha e repetitiva. E agora tu fizeste eu travar uma batalha no msn com a Gih..hahahahah Beijão, teacher!!!
Raquel (julho 22, 2005 10:15 PM) disse:
Nossa, que debate... hahahahah
Sobre as pílulas... Wagner, obviamente que é figura de linguagem. Eu quis dizer que tenho livros pra quando estou triste, para quando estou contente, para quando preciso me sentir mais aguerrida e assim por diante. :)
Érico: Eu concordo em parte com o que dissestes sobre o senso crítico ser formado pelo ambiente e (diria o Ricardo) pelos genes. Mas mesmo assim, o que a criança lê? Aquilo que ela se interessa ou o que dão pra ela ler? Um dos meus livros favoritos do Monteiro Lobato é "Os doze trabalhos de hércules" (ou algo assim, a Emília ajuda o Hércules), que possui(a?) dois tomos de 500 páginas (mais ou menos). Bem, esse livro, em edição única e órfã ficava escondido na biblioteca, porque era 'grande demais' e as crianças não iam ler. Eu me lembro da minha alegria ao descobrir o tal livro, depois que eu achava que já tinha lido todos os do Monteiro Lobato.
Deysi e Giselle: Bem-vindas. :) O importante é discutir. E gostei muito deste teu ultimo comentário, Deysi. :)
cr (julho 23, 2005 3:12 PM) disse:
oi raquel! eu nao quero entrar na discussao, pq estou nostalgica e com agua nos olhos depois de ler teu post ;)
minha irma me ensinou a ler qdo eu tinha uns 5 anos, e a trajetoria foi tipo a tua. o meu preferido do monteiro lobato tb era os 12 trabalhos de hercules, q eu peguei na biblioteca publica de pelotas!
mas o meu livro preferido era a Iliada, q eu achava hiperemocionante, e eu me fantasiava de heitor (!) e ficava correndo em circulos no patio de casa.
e a minha pilula eh o great expectations. :)
raquel, escreve um post sobre tuas pilulas! fiquei tri curiosa! beijao, estou morrendo de saudades.
andressa (setembro 15, 2008 7:42 PM) disse:
eu adoro montero lobato eu acho daora os livros