[29 de julho de 2010]

O Formspring é um site de rede social?

Ontem, no Twitter, a Miss Moura perguntou, o RodrigoPrior e o Alex Primo discutiram e no final, debatemos um pouco a respeito das características de site de rede social e rede social e se o Formspring se enquadraria nesses elementos. Como 140 caracteres, afinal, são pouca coisa, vou resumir o que eu queria defender aqui.

Site de rede social é uma denominação específica, criada para focar ferramentas que disponibilizam publicamente as redes sociais das pessoas (indivíduos e suas conexões). É o caso do Orkut, por exemplo. Já "rede social" é um conceito utilizado para focar a estrutura dos grupos sociais. Ou seja, o que se chama de "rede social" é, na base, um grupo de pessoas que está interconectado. A idéia dos estudiosos das "redes sociais" é observar, assim, as estruturas sociais e utilizar a metáfora da rede para analisar as causas e efeitos dessas estruturas.

O que pode ser considerado uma rede social na Internet, assim?

Do meu ponto de vista, qualquer representação de um grupo social, que permita a observação desse grupo a partir de suas conexões pode ser estudado a partir da metáfora da rede social. A Internet tem características próprias na publicização das conexões. Podemos, por exemplo, observar as conexões a partir de elementos estáticos - como os links entre os seguidos ou seguidores no Twitter (o que eu chamo de redes de associação ou redes associativas, baseadas em laços de pertencimento). E podemos, também, inferir essas conexões a partir de conversações, por exemplo, como é o caso das conversas numa ferramenta de chat (o que eu chamo de rede emergente, ou seja, baseada em conexões relacionais). (Aliás, essa idéia de que as redes sociais não são todas iguais também é defendida pelo Bernardo Huberman e seus co-autores neste texto sobre o Twitter).

Meu ponto, portanto, é que o conceito de rede social não é estanque. É uma ferramenta, que auxilia a perceber a estrutura (e, como defendo no meu livro, também as funções) dos grupos sociais. Mas quem define o que vai ser observado como rede social? Em última análise, o pesquisador ou analista. :-) Claro que é preciso que se consiga "ver" a estrutura na ferramenta, por exemplo, individualizar os nós e perceber as conexões. Por isso eu disse que uma ferramenta que não é um site de rede social pode ser apropriada como tal. E aí chegamos no Formspring.

Afinal, o Formspring é um site de rede social?

Depende. Se utilizarmos apenas a ferramenta para a discussão, não. Mas se observarmos as práticas sociais emergentes na ferramenta, pode ser que sim. Por exemplo, conheço algumas pessoas que usam o Formspring como site de rede social. Como? Elas costumam colocar perguntas e responder as dos seus amigos. Essas trocas vão fazer com que nós, analistas, percebamos que aqueles indivíduos são um grupo social. Mas, em princípio, a ferramenta Formspring não tem características de site de rede social, pois não foi feita para publicizar redes sociais. Assim, é difícil definir a priori, se uma ferramenta pode servir para estudar as redes sociais ou não. Depende. É preciso observar também as práticas sociais que vão reconfigurar os sentidos do suporte técnico.
por raquel (08:36) [comentar este post]


Comentários

Juliana Rossa (julho 29, 2010 9:29 AM) disse:

O assunto ficou bem claro com essa explicação.
Devemos analisar as redes sociais na internet sempre dentro de um contexto.
Abraço!

João Baptista Lago (julho 29, 2010 10:16 AM) disse:

Oi, Raquel: em outras palavras; havendo apropriação por parte de uma rede, *qualquer* ferramenta pode ser um site de redes sociais? Mesmo que não tenha sido [o site] concebido para isso. O que definiria se seria SRS ou não, portanto, seria a apropriação e, não, a ferramenta: que até pode ter uma arquitetura visando abrigar redes e facilitar seus fluxos, porém, se não for apropriada por redes sociais, na prática não seria SRS.

***

Agora queria mudar de assunto e aproveitar pra jogar um pouquinho de lenha na fogueira, em relação a algo que defendo há um certo tempo: as redes sociais não precisariam ser necessariamente reflexo & materialização, na Internet, das redes presenciais: uma rede pode se constituir na Internet a partir do próprio site, pode brotar diretamente de sua plataforma, sem qualquer vínculo com o presencial. Nesse sentido, embora eu adore o Bourdieu e seja muito chatinho com os americanos, nesse ponto acho que a contribuição dos americanos seria importante para explicar este fenômeno, da rede social nascendo da própria plataforma e absolutamente descolada, do presencial. Por quê? Porque, na concepção dos americanos, o capital social não seria posse, propriedade de um grupo fechado, como ocorre na definição bourdieusana. O capital social pode ser algo que permeia e transita pela sociedade e é exatamente esse capital social "posse de ninguém" e de um coletivo sem rosto ao mesmo tempo, que possibilita você usar um SRS, adicionar pessoas que você nunca viu na vida nem sabe de onde vieram e, mesmo assim, estabelecer uma relação com elas, inclusive com vínculos fortes. Acho que a grande sacada de mestre do FB ao introduzir os social games em sua plataforma, foi justamente isso: fornecendo games, o FB forneceu um capital social aos usuários. Olha só que interessante: naqueles groups existentes apenas para você arrumar parceiros de jogo no FB, é claro que a maioria de quem vocâ adiciona para aumentar tua pontuação e privilégios no jogo, é composta por pessoas em relação às quais, teu laço é fraco. Isso não impede, no entanto, que você comnce a trocar figurinhas com algumas dessas pessoas, sobre coisas que nada têm a ver com o game. Claro que com todo mundo não dá para fazer isso, mesmo porque, o add ocorreu em função do game e nem sempre a conversão do vínculo de jogo para um vínculo pessoal, é bem aceita. Mas tem muitos casos em que isso acontece, sim! É preciso considerar, finalmente, que o processo de escolha desses parceiros de jogos, muitas vezes é influenciado por fatores subjetivos. Você não sabe nada sobre a pessoa, mas você, antes de enviar o "request" para ser add por ela, você de certa forma fez uma leitura (ainda que inconsciente) sobre essa pessoa, principalmente de sua foto de avatar. Assim, adicionando por uma afinidade em relação ao que a foto de avatar dela sugeriu, você está assegurando que, futuramente, um aprofundamente do vínculo seja possível e vá além do game (salvo, em casos de jogadores realmente viciadões, de verdade).

Análogamente falando, do mesmo modo que o game atuaria como uma espécie de ponto em comum entre usuários desconhecidos, o capital social "coletivo" (e não posse do grupo), seria o elemento comum que possibilitaria que desconhecidos, constituíssem uma rede social a partir da própria plataforma.

Abração, pra vc e pra filhota, que sem dúvida será sempre muito criativa: tão logo nasceu já caiu dentro do grande caldeirão de pó de pirlimpimpim da tua casa. Assim como o amigo do Astérix, o Obélix: que sempre foi forte, por haver caído, quando bebê, dentro do caldeirão de poção mágica do druida Panoramix.

raquel (julho 29, 2010 10:48 AM) disse:

Oi JB!
Concordo com a idéia de que a Internet MODIFICA as redes sociais, transformando o universo do offline e não apenas o reflete. É daí que eu comecei a discutir as redes sociais de associação, ou seja, que não são baseadas em conexões estabelecidas através da interação. É por isso que conseguimos ter mil amigos no orkut e apenas poucos na vida offline. :D Acho que existe uma conexão entre as redes sociais offline e online, mas a Internet amplifica essas conexões, oferecendo, por exemplo, acesso a tipos de capital social que seria inacessíveis de outra forma. :D

Daniela (julho 29, 2010 2:37 PM) disse:

Acopanhei a discussão pelo twitter e li os dois textos, o teu e o do Alex Primo. No fim, acredito que um complementou o outro.
O formspring não pode ser generalizado como uma rede social, mas é possível, se compreendi o que você quis dizer, que ele seja usado (uma ferramenta) por um grupo de atores como uma rede. Desde que eles estejam identificados, será possível analisar o grupo. Certo?

Ana Célia Costa (julho 29, 2010 7:27 PM) disse:

Acredito que não é uma mídia social, visto que anônimos podem participar e com isso perder um vínculo no canal. Dessa forma o conceito fica diferente do que espera como ocorre em outros como Facebook, Orkut, Youtube...

Comente este post