[02 de abril de 2009]
Redes Sociais e Reciprocidade: Quem são seus "amigos" online?
Um dos conceitos que tem sido mais discutido por estudiosos e pesquisadores das ciências sociais e humanas que focam o ciberespaço é o conceito de amizade. De um modo geral, o pessoal que trabalha com redes sociais costuma focar como uma relação de amizade como sempre marcado pela reciprocidade (vide, por exemplo Ellison, Steinfield & Lampe, 2007). Assim, um "amigo" seria alguém com quem temos uma relação recíproca. (Não vou chamar de simétrica ou assimétrica porque é um conceito mais complexo em termos de redes sociais, conectado também ao valor atribuído às conexões do grafo.) Assim, o Orkut seria um site de rede social onde é possível ter "amigos", já que as conexões precisam ser recíprocas para existir. Já o Twitter é um espaço onde as conexões não precisam ser recíprocas e, portanto, não necessariamente um espaço de "amigos". Mas será que é só isso?
Na verdade, inferir um conceito tão complexo como amizade (que eu focaria como a existência de um laço forte entre dois atores sociais, que dividem intimidade) a partir das interações na Rede é um processo difícil. Assim, o que a maior parte dos pesquisadores faz é simplificar o conceito de forma a possibilitar a sua aplicação para esses espaços sociais. Uma das formas que eu usei para tentar inferir um laço forte entre dois atores foi quali-quantitativa. Eu avaliei não apenas a reciprocidade e quantidade de trocas conversacionais que existiam entre dois determinados nós na rede, mas também o conteúdo dessas trocas (ou seja, o que as pessoas diziam e as referências que eram feitas aos espaços offline), focando o capital social contruído. Além disso, considerei também as interconexões entre os atores. Quando um ator A conversava com B e com C e com D, que eram partícipes da mesma rede, há uma grande chance que B, C e D também se conheçam. Mas de um modo geral, acho que ainda é um método bem falho.
Nesse grafo acima, vemos a intensidade das conexões demarcadas em um cluster de uma rede a partir da minha proposta discutida acima. Acho que neste trabalho, há uma proximidade com o grupo "offline" de amigos bastante grande, embora as interações online não tenham refletido de forma tão clara a proximidade dos atores no espaço offline.
Assim, embora a reciprocidade da conexão seja um indicativo interessante da existência de capital social capaz de indicar um laço forte, não é uma garantia deste. As pessoas tornam conexões recíprocas pelos mais variados motivos e nem sempre essas conexões refletem sua proximidade. Mas há mais um item. Uma das qualidades de um laço forte é manter relações variadas, chamadas aí de multiplexas. Assim, talvez um melhor indicativo seja a quantidade de conexões existentes entre dois dados atores nos vários sites de redes sociais. Ou seja, pessoas que são mais íntimas estão presentes em vários espaços de conexão e cada ator tenderá a usar um desses espaços para tratar com elas. Também me parece que cada ator ou grupo social tende a "eleger" um espaço específico, mais restrito, para sua rede social mais próxima e vários outros para suas demais redes sociais. Vale a discussão. :-)
por raquel (17:02) [comentar este post]



Comentários
Divã do Masini (abril 2, 2009 5:56 PM) disse:
Olá, Raquel.
Cheugie até aqui via twitter e algumas dúvidas pairaram ao ler a parte do texto que coloco abaixo em aspas:
"Já o Twitter é um espaço onde as conexões não precisam ser recíprocas e, portanto, não necessariamente um espaço de "amigos"."
Apesar do "não necessariamente" isso quer dizer que o Twitter não é bem uma rede social? Caso for, ele se encaixa num social "via mão única"? Via mão única é ser social?
abraçossssssss
raquel (abril 3, 2009 11:06 AM) disse:
Oi!
É uma rede social sim, mas uma rede baseada em dois tipos de conexões: associação ou filiação e conversação, que dão acesso a tipos diferentes de capital social. Falei um pouco disso nos textos anteriores. :D
Jackie (abril 4, 2009 10:38 AM) disse:
Nem lembro como cheguei aqui mas vou voltar com calma
Parabéns pelas reflexões, o discurso parece mais Sociológico do que qualquer outra coisa :)
Rafael Cardoso (abril 7, 2009 12:29 AM) disse:
Quanta discussão fútil, quem é
Rafael Cardoso (abril 7, 2009 12:30 AM) disse:
Quanta discussão fútil, quem é que não sabe o que é um amigo. Que bobagem discutir o sexo dos anjos.
Marcus Vidal (abril 8, 2009 10:01 AM) disse:
Raquel:
Exatamente isto que eu estava procurando. Na pesquisa que estamos planejando aqui na Universidade Positivo (UP) o principal problema de pesquisa é a reciprocidade.
Agradeço mais uma vez e voltaremos a nos comunicar.
Abraço
Prof. Marcus Vidal
Jessé (abril 22, 2009 11:30 PM) disse:
Olá Raquel.
Tive conhecimento desse espaço de discussão há pouco tempo e confesso que a cada acesso me interesso ainda mais pelo universo do ciberespaço, redes, mídias e afins.
Estou em vias da elaboração de meu trabalho de conclusão de curso .
Essa area de pesquisa muito me interessa e através da leitura de seus artigos e teses venho me empolgando e acredito que esse será meu espaço de pesquisa.
vc tem twinter??
abs
Sucesso