[03 de janeiro de 2011]
Redes Sociais na Internet, Conversação e Contexto
Uma das maiores riquezas do estudo das redes sociais na Internet é poder perceber, justamente, o contexto dentro do qual emergem as informações e as conversações que vão gerar seu espalhamento. Afinal, essas redes são constituídas pelas conversações e são essas conversações que vão dar sentido para os valores que emergem nesses grupos. Entretanto, observar e compreender o contexto dessas conversações é bem difícil. Esse contexto é, justamente, um dos temas que considero difícil trabalhar e discutir dentro da comunicação mediada pelo computador (CMC), por conta de alguns problemas que vou explorar a seguir.
Falta de Pistas
Um dos grandes problemas da CMC, que já foi discutido por vários pesquisadores ( vide a Susan Herring, por exemplo) é a falta de "pistas" que auxiliem a interpretar e reconstruir o contexto da conversação. Isso porque a conversação online funciona mais ou menos como os diálogos offline. Só que o contexto é muito mais dificilmente construído. Por exemplo, numa conversa, um monte de pistas são constantemente oferecidas pelos participantes, para auxiliar na compreensão do que é dito: gestos, tom de voz, expressões faciais e etc. Essas pistas não existem no ambiente da mediação do computador. Como forma de tentar superar parte dessas dificuldades, as pessoas optam por uma linguagem escrita mais oralizada, cheia de onomatopéias e emoticons para tentar proporcionar "pistas de contexto".
Diálogos Assíncronos
Na CMC há também a possibilidade de diálogos que pulam constantemente entre sincronia e assincronia. Ou seja, diálogos que são amplificados no tempo, retomados e reconstruídos. Também nessas conversações a reconstrução do contexto é dificultada não apenas porque é preciso reconstruir o diálogo mas, igualmente pela dificuldade de recriar um contexto que é dinâmico e que por vezes faz referência a um "ambiente" da conversação que não está mais presente. É um dos grandes problemas que o Twitter tenta resolver, por exemplo, com o uso das hashtags ("#"). Só que nem sempre é eficiente, especialmente quando se tem muita gente utilizando as mesmas hashtags com sentidos diferentes.
Migração
Por conta de suas características assíncronas, o diálogo na CMC migra entre várias ferramentas e dentro de espaços diferentes da mesma ferramenta. Por exemplo, uma conversa que se iniciou em mensagens (privadas) no Twitter pode ser completada com @s públicas. Ou um comentário em um blog pode gerar outro post em outro blog que continua o papo. Ou mesmo algo que foi originalmente tuítado pode migrar para o Plurk e continuar em outro espaço. Como essa migração influencia o contexto? Um dos grandes auxílio é o link, que normalmente oferece alguma pista de contexto. Mas de um modo geral, a migração acaba por restringir a compreensão do contexto para os membros de um mesmo grupo, que participam dos mesmos "ambientes" e que portanto, serão capazes de entendê-lo.
Como nos diálogos offline, o contexto na CMC é constantemente modificado, renegociado e reconstruído. A informação só passa a fazer sentido quando se entende o que é discutido na rede. Por exemplo, pensem no #calabocagalvao... As piadas a respeito do seu significado só foram interessantes porque brincavam com o contexto da tag. Esse contexto é que dá o espaço onde a informação deve ser interpretada. Só que, ao contrário do diálogo offline, boa parte das conversações que acontecem no ciberespaço são, ao mesmo tempo, síncronas e assíncronas. E essa assincronia dificulta a percepção do contexto tanto por parte dos participantes, quanto por parte dos observadores.
O Contexto é essencial
O contexto, assim, é importante para se compreender não apenas os valores gerados pelas redes sociais mas, também, para se compreender as motivações e intenções na difusão de determinadas informações. Mais do que isso, o contexto é também importantíssimo para que se compreenda o potencial das conversações e suas dinâmicas no ambiente do ciberespaço.
O contexto também é tão essencial para essas redes (vejam esse post do WebMetricsGuru que inspirou parte da discussão do meu post) que também se reflete na adoção das ferramentas de CMC e em suas apropriações e modos de pensar o design da informação.
O Facebook, por exemplo, passou a oferecer mais contexto nas informações que dá a seus usuários. A reformulação do design do Twitter também parece ter um foco importante na melhora da percepção do contexto, pois novas ferramentas para observar conversações, hashtags e outras "pistas" de contexto foram incluídas. Ao mesmo tempo, as recomendações do Twitter, ao contrário das do Facebook, não têm contexto e, portanto, são menos valorizadas pelas redes sociais. Assim, é preciso pensar em formas de compreender e reconstruir o contexto das conversações nas redes sociais online como forma de acrescentar valor para a informação.
Assim, as informações contextuais são essenciais para que alguém valorize uma recomendação de um produto no Facebook (Mas por que isso está sendo recomendado? Como a minha rede social percebe isso? Qual a relevância desta informação para mim?), e também essenciais para que um monitoramento de mídia social seja eficiente (Mas quem disse? Por que disse? Qual o sentido do que foi dito para a rede social?). E também são essenciais para que alguém perceba qual é o valor das conversações em cada ferramenta (social? cognitivo? normativo?) e sua influência (autoridade? popularidade?)e etc.
por raquel (09:24) [comentar este post]



Comentários
Vivianne Amaral (janeiro 3, 2011 1:33 PM) disse:
Olá Raquel, muito importante a valorização do contexto como elemento intrínseco à comunicação. As vezes, na comunicação mediada, temos a falsa impressão que a importância do contexto pode ser suprimida ou diminuída. No meu trabalho percebo que muito da insatisfação das pessoas com a comunicação mediada decorre da dificuldade de "ler" o contexto
da interação. A leitura do contexto traz muitas informações sobre a relação entre os comunicantes.
Sobre a questão do complexidade do ato comunicativo fiz uma apresentação no simpósio de Escola de Redes , em 2009.(http://tinyurl.com/3ahmwtu)
Sua postagem e as perguntas acrescentam novas elementos ao que investigo. Abraços
Sofia (janeiro 5, 2011 11:55 AM) disse:
Você já pode se inscrever na Conferência Internacional de Cidades Inovadoras (CICI2011)! http://migre.me/3pOiK
Maria Fernanda Lacerda Pereira (janeiro 5, 2011 1:25 PM) disse:
Raquel,
É admirável o modo como transpõe em teoria o que vivo na prática nas redes sociais. Já havia me dado conta da necessidade de contextualizar as conversas na web, mas nunca havia parado para analisar todas as suas dimensões.
Ótimo trabalho!
Abraços!
JOSÉ RICARDO LIA FOOK (maio 23, 2011 6:32 PM) disse:
Raquel, Parabéns pelo seu artigo! Sobre a contextualização via CMC, acho que um início de abertura de um grande arco de discussões poderia ser a criação de fóruns direcionados pela pesquisa simples e direta de determinadas palavras-chaves (assuntos), onde posteriormente cada grupo de interesse iria se formando automaticamente após ler o conteúdo postado dos componentes do mesmo assunto, de acordo com a abordagem e comentários postados. A partir desses grupos poderia-se então começar a discutir o contexto específico e de certa forma 100% como CMC. Os conteúdos e suas repercussões bem que poderiam ter sempre a intermediação de (bons) jornalistas internautas para sua publicação como postagem de um certo assunto (sem incluir outros não selecionados do grupo, mas nunca desprezando-os; esses ficariam para quem quisesse debater individualmente de forma assíncrona!).