[11 de março de 2009]

Sites de Redes Sociais e Capital Social de Manutenção

O Cameron Marlow publicou no blog um relato bem mais aprofundado de sua pesquisa sobre o Facebook que foi notícia no The Economist e que eu comentei há alguns dias. No post, ele explicou algumas coisas que eu acho que são fundamentais e que podemos perceber também no uso de outros sites de redes sociais, como o Orkut.

Marlow explica que o núcleo da experiência de uso do Facebook é manter contato social. Ou seja, o FB funcionaria como uma espécie de RSS de notícias dos amigos e conhecidos, que permite que as conexões sociais sejam mantidas a distância e, muitas vezes, sem conversação explícita. Marlow chama essa característica de "consumo de conteúdo" sobre as conexões sociais. Essa experiência é caracterítica dos sites de redes sociais como o Orkut e o Facebook, onde há um foco grande no seu uso como ferramenta de contato social.Vejam que, de acordo com a perspectiva colocada por Marlow, o núcleo da experiência não é construir novos contatos, mas manter contatos já existentes. Ou seja, esse tipo de site permite que em seu grupo de conexões sejam acrescidas pessoas de quem gostaria de receber notícias e manter contato e esse contato é mantido. Mas não significa que os atores tenham quaisquer interesse em conversar ou interagir entre si. Como Marlow mostrou, as redes de contatos (que eu chamaria de redes de filiação) são muito maiores que as redes de conversações (que eu chamaria de rede emergente). Poderíamos dizer assim que esses sites de redes sociais são centrados na manutenção de conexões. Há um artigo da Nicole Ellison, do Charles Steinfield e do Clifford Lampe que foca justamente os tipos de capital social encontrados no Facebook, explicitando como uma das principais formas, o capital social de manutenção.

Isso nos mostra que esse tipo de site de rede social possui essa característica específica em sua apropriação - mostrar a rede social e permitir que essas conexões sejam mantidas mesmo sem interação e que as informações sobre a própria rede circulem deste modo. Essa característica é um dos elementos cruciais da compreensão dos sites de redes sociais: a manutenção das conexões independentemente da conversação e da interação.

Essas características observadas por Marlow já foram verificadas também em outros sites de redes sociais. Na minha tese, eu procurei mostrar que as redes emergentes eram substancialmente menores que as redes de filiação no Fotolog e que essas primeiras eram ainda muito geograficamente localizadas, enfatizando o papel de manutenção das conexões sociais desse tipo de ferramenta. Inicialmente, pensei que essa seria uma característica talvez única, mas não é o que parece. No meu trabalho e da Gabriela Zago com redes sociais no Twitter, verificamos coisas parecidas.

twittergrafoseguidos.jpg

Rede de seguidos de uma rede ego-centrada no Twitter.

conversaeseguidos-1.jpg

Rede de efeitva conversação da mesma rede ego-centrada no Twitter.

Mas será que todos os sites de redes sociais são iguais? Não sabemos. Aparentemente, há uma tendência possível de que os achados de Marlow sejam generalizáveis para várias apropriações de sites de redes sociais, em culturas bastante diferentes, de uma forma bastante geral. Mas sabemos, com alguma segurança, que aparentemente, o capital social de manutenção parece ser uma característica presente em todos esses sites.
por raquel (14:14) [comentar este post]


Comentários

César Silva (março 12, 2009 1:09 AM) disse:

Olá Raquel, sou de Fortaleza e mestrando em comunicação pela UFC. O tema que estou trabalhando é sobre o consumo de redes sociais virtuais e como esta apropriação influi ou não na formação das identidades juvenis. Bom, o que quero dizer mesmo é que descobri seu blog há pouco tempo e sempre o visito e devo confessar mais ainda que a cada dia me sinto um "lascado" com tanta informação relevante e nova que vejo diariamente aqui. Cheguei a passar uma madruga inteira navegando pelo blog, pareço até uma criança em um parque de diversão que não sabe qual brinquedo ir em meio a tantas opções, muito obg mesmo por compartilhar essas informações e devo dizer tb que aguardo ansioso pelo lançamento de seu livro e tomara que saia logo, tem previsão?

Espero manter contato e sempre lhe pertubar por aqui, rsrsrs

João Baptista Lago (março 12, 2009 2:49 PM) disse:

Raquel, que legal [mais] este post: tb me fez perder o sono. Deixando os confetes de lado, gostaria de retomar uma indagação que fazes no final: "Mas será que todos os sites de redes sociais são iguais?". Nesse sentido, acho que podemos estabelecer uma diferença significativa entre FB e Orkut: enquanto para o FB talvez seja mais apropriado falarmos sobretudo de capital social, em relação ao Orkut o capital emocional teria um peso significativamente maior (o que não quer dizer que ambos os capitais, não estejam presentes em ambas ferramentas). Em tempo: para o FB cuja expansão se iniciou através da adição ao perfil de colegas de instituições de ensino (e posteriormente, de trabalho), não existiriam tanto pessoas, porém, personas institucionais. Ênfase institucional que jamais existiu no Orkut e cujas características, a começar pela sua própria arquitetura, sempre privilegiaram, acima de tudo, as PESSOAS. Em seu auge o Orkut não teria sido apenas uma rede de filiações porém, em boa medida, rede emergente. Mas vou ficando por aqui, senão não páro mais de escrever.

adriana amaral (março 13, 2009 7:35 PM) disse:

Cesar Silva - não querendo me intrometer mas estou trabalhando justamente com essa questão das identidades juvenis nas redes sociais e orientando 2 alunas nessa vertente, se quiser entre em contato por adriamaral@yahoo.com

luciano (março 15, 2009 1:46 AM) disse:

Blogueiro a 5 meses,acompanho eventualmente seu twitter,belo trabalho guria,sou de bage,meu professor de historia da educacao era da ufpel,bela cidade ai,abracos....

Raphael Perret (março 15, 2009 7:21 PM) disse:

Muito interessante. O Orkut começou há algum tempo a mostrar as atualizações recentes dos meus contatos, característica que sempre marcou o Facebook. Sinto que esses recursos são, de fato, importantes para a manutenção do contato, para o conhecimento do que está acontecendo com ou do que está produzindo o meu amigo. Também é verdade que minha interação está cada vez menor no Orkut (talvez seja muito maior em comunidades, onde meu vínculo com os participantes é bem menor), mas não me sinto desinformado em relação aos contatos: sei por onde têm passeado, o que estão sentindo, se estão solteiros ou não...

raquel (março 17, 2009 8:46 AM) disse:

Oi Raphael! :D E será que o futuro do Orkut será ser apenas RSS social? :D

raquel (março 17, 2009 8:47 AM) disse:

Oi Luciano! Obrigada!

raquel (março 17, 2009 8:48 AM) disse:

João Baptista: Tás quase precisando de um blog pra debater essas questões. ;-)

raquel (março 17, 2009 8:49 AM) disse:

Oi César! A Adri ali já apontou a pesquisa dela. :D Que bom que está ajudando.

Peçanha (abril 11, 2009 10:52 AM) disse:

Olá Raquel, por algum motivo acabei tropeçando no seu blog (maravilhas do hipertexto) e gostei muito.
Um questionamento meu sobre o que você citou nesse artigo do Marlow é que em momento nenhum a reputação foi analisada como um gerador de conexões. Acho que a questão do status gerado pelos números (principalmente no twitter) tem um grande impacto aí.
Em relação à pergunta final, acho que é impossível generalizar algo baseado no facebook.
Quando eu criei um aplicativo de Orkut, por exemplo, era impressionante a quantidade de mensagens trocadas entre pessoas que estavam tentando conhecer e fazer mais "amigos" e principalmente pessoas do sexo oposto. Foi só uma observação, necessitaria de análise, mas acho que é um reflexo do alcance do Orkut no país.
Outra coisa é que o espaço das redes "genéricas", como facebook e orkut já foi tomado por esses grande jogadores. A tendência hoje são redes de nicho, agrupadas em torno de algum objeto social específico. Eu acredito que particularidades de cada objeto social são significativas para moldar o funcionamento de cada rede.
Parabéns pelo Blog! Já tá no meu RSS!

raquel (abril 13, 2009 10:36 AM) disse:

Oi Peçanha!
Então, eu acho que a "sedução" (digamos assim) é uma característica muito forte da apropriação do Orkut no Brasil (e em outros países, mas não quero generalizar pq não tenho dados). Esse ponto, junto com a competição, eu acho, são dois motivadores muito fortes do uso do Orkut, especialmente entre adolescentes e jovens. (Aliás, dava um bom post!). Acho que tens razão que as conexões são impactantes - afinal, é uma rede, quanto mais conexões, maior a clusterização -, mas não deve ser o único fator analisado. :D

Tens dados do teu aplicativo? Qual é? Vamos continuar discutindo!

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