[25 de outubro de 2008]
Sobre plágio, cópia e outras coisas mais
No edital: (p. 58) "A primeira grande revolução na comunicação aconteceu quando o homem desenvolveu a linguagem, como tentativa de comunicar-se com seus semelhantes. A linguagem permitiu que a humanidade transmitisse o conhecimento adquirido, aperfeiçoando a forma de apreender o mundo. Alguns séculos mais tarde, a linguagem teve seus sons codificados em símbolos, e posteriormente em alfabetos. Com a criação dessa nova convenção, teve início a civilização como a conhecemos hoje."
No meu artigo (p.1): "A primeira grande revolução na comunicação aconteceu quando o homem desenvolveu a linguagem, como tentativa de comunicar-se com seus semelhantes e sucesso na luta pela sobrevivência. A linguagem permitiu que a humanidade conseguisse transmitir o conhecimento adquirido, aperfeiçoando a forma de apreender o mundo pelas primeiras comunidades. Alguns séculos mais tarde, a linguagem teve seus sons codificados em símbolos, e posteriormente em alfabetos. Com a criação desta nova convenção, teve início a civilização como a conhecemos hoje."
No edital (p.58): "A escrita permitiu que o conhecimento ultrapassasse a barreira do tempo e que amensagem pudesse existir independente de um emissor, podendo ser recebida por alguém que soubesse decifrar seu código. Permitiu também a organização linear do pensamento, base da inteligência e cultura dos séculos seguintes. Com a escrita desenvolveu-se também a ciência, criando várias raízes de conhecimento científico e desenvolvendo as civilizações. Com a ciência, o espaço pôde ser reconfigurado, medido, transformado. A distância passou a ser algo concreto, passível de ser medido."
No meu artigo (p.1): " A escrita permitiu que o conhecimento ultrapassasse a barreira do tempo e que a mensagem pudesse existir independente de um emissor, podendo ser recebida a qualquer momento por alguém que soubesse decifrar o código. Permitiu também a organização linear do pensamento, base da inteligência e cultura dos séculos seguintes. Com a escrita desenvolveu-se também a ciência, criando várias raízes de conhecimento científico e desenvolvendo a civilização. Com a ciência, o espaço pôde ser reconfigurado, medido, transformado. A distância passou a ser algo concreto, passível de ser medido."
No edital (p. 58): "Tamanha reviravolta está sendo revivida com o surgimento de um novo meio de comunicação, o mais completo já concebido pela tecnologia humana: a internet. O primeiro meio a conjugar duas características dos meios anteriores: a interatividade e a massividade.O primeiro meio a permitir que todos sejam, ao mesmo tempo, emissores e receptores da mensagem. É uma comunidade repleta de vias duplas de comunicação, onde todos podem construir, dizer, escrever, falar e serem ouvidos, vistos, lidos. Com o surgimento desse novo meio diversos paradigmas começaram a ser modificados, e nossa sociedade deparou-se com uma nova revolução, tanto ou maisimportante do que a invenção da escrita. O paradigma do pensamento linear está sendo superado por um novo paradigma: o pensamento hipertextual, que se organiza sob a forma de associações complexas, considerado muito mais apto e completo para descrever e explicar os fenômenos do que o processo linear. Ao mesmo tempo, o advento do ciberespaço, um espaço novo, não concreto, mas igualmente real, sugere uma reconfiguração dos espaços já conhecidos, das relações entre as pessoas e da própria estrutura de poder. Uma das características mais profundas da influência dos meios de comunicação nas sociedades é a reconfiguração dos espaços percebidos por essa sociedade. A comunicação reduz as distâncias e permite que as pessoas se aproximem. Com a internet essas distâncias tornam-se ínfimas. Agora, além de ter "acesso" a informações de lugares distantes, é possível também alterá-las."
No meu artigo: (p1) "Tamanha reviravolta está sendo revivida neste final de século. Com o surgimento de um novo meio de comunicação, o mais completo já concebido pela tecnologia humana: a Internet. O primeiro meio a conjugar duas características dos meios anteriores: a interatividade e a massividade. O primeiro meio a ser, ao mesmo tempo, com o alcance da televisão, mas com a possibilidade de que todos sejam, ao mesmo tempo, emissores e receptores da mensagem. [É a aldeia global de McLuhan concretizada muito além do que ele havia previsto. Uma aldeia repletas de vias duplas de comunicação, onde todos pode construir, dizer, escrever, falar e serem ouvidos, vistos, lidos.] Com o surgimento deste novo meio, diversos paradigmas começam a ser modificados e nossa sociedade depara-se com uma nova revolução, tanto ou mais importante do que a invenção da escrita. O paradigma do pensamento linear está sendo superado por um novo paradigma: o pensamento hipertextual, que organiza-se sob a forma de associações complexas, considerado muito mais apto e completo para descrever e explicar os fenômenos do que o linear. Ao mesmo tempo, o advento do ciberespaço, um espaço novo, não concreto, mas igualmente real sugere uma reconfiguração dos espaços já conhecidos, das relações entre as pessoas e da própria estrutura de poder."
(p.2) "Uma das características mais profundas da influência de um meio de comunicação nas sociedades é a reconfiguração dos espaços percebidos por esta sociedade. Isso porque a comunicação reduz as distâncias e permite que as pessoas aproximem-se. Não em uma perspectiva concreta, obviamente, mas em uma perspectiva de percepção. Com a Internet essas distâncias tornam-se ínfimas. Isso porque agora não é mais possível apenas ter "acesso" a informações de lugares distantes. É possível também alterá-las."
No edital (p. 59) "A análise da internet como fator modificador das relações sociais é principalmente enquadrada pelo estudo das comunidades virtuais, como forma mais pura de conseqüência da interação entre o humano e o ciberespaço."
No meu artigo (p.2) "A análise da Internet como fator modificador das relações sociais é principalmente enquadrada, em nosso ponto de vista, pelo estudo das comunidades virtuais, como forma mais pura de conseqüência da interação entre o humano e o ciberespaço.
No edital (p.59) "Além disso, a organização da própria informação no ciberespaço faz com que a noção de território que permeou nossas idéias por séculos seja superada."
No meu artigo: (p.5) "Além disso, a organização da própria informação no ciberespaço faz com que a noção de território que permeou nossas idéias por séculos seja superada. "
O problema da cópia na Internet é antigo, todos sabemos. Mas a questão, nos últimos tempos, está virando piada. Recentemente, tive alunos que passaram por problemas semelhantes. Agora quando o próprio Governo Federal copia sem citar a fonte, acho que instituímos oficialmente a "casa da sogra". Sei que muita gente copia por ingenuidade, porque nosso sistema de ensino privilegia a cópia em detrimento do pensamento original e criativo. Mas também temos aqueles que copiam por pura preguiça de pensar, de escrever, de criar algo. E isso é imperdoável.
É preciso que professores, editores, orientadores e todos aqueles que lidam com a educação passem a modificar a mentalidade e a forma de trabalho dos alunos. É preciso estimular o pensamento original, a discussão e evitar a cópia, sob pena da estagnação do conhecimento. Sei o quanto é difícil, muitas vezes, detectar uma cópia. Mas acho que é preciso políticas nos cursos superiores para punir tais práticas e orientação dos alunos para que valorizem sua própria criatividade e seu próprio pensamento. Recentemente, conheci essa ferramenta aqui - Plagiarism Detect - que é bastante útil e funciona direitinho para mostrar cópias. O site faz uma varredura em toda a rede e mostra frases e parágrafos inteiros copiados. Outras ferramentas: Esse site discute o que é plágio e quais seus tipos, e procurando por outras ferramentas, achei o Moss de Stanford.
É interessante que, recentemente, participei de uma palestra com um linguista especializado em plágio e ele discutia a possibilidade estatística de alguém dentro do mesmo universo cultural (socioleto) construir uma frase de mais de 10 palavras na mesma seqüência exatamente igual. É praticamente inexistente, a menos que exista a cópia. Isso porque cada indivíduo tem um vocabulário próprio e uma maneira pessoal de organizar suas idéias. Esse vocabulário é chamado idioleto. Idioletos são extremamente particulares e constituem um universo de termos utilizados por cada indivíduo, a partir de suas leituras, conhecimentos, estudos e convivências. Cada indivíduo tem seu próprio idioleto. Por isso, a chance de dois indivíduos construirem frases (e parágrafos) inteiramente iguais é minúscula.
Na IR, no workshop de publicações, a discussão sobre o plágio foi bastante ampla e veemente. As revistas têm posicionamentos bastante radicais quanto a isso, coisa considerada inadmissível. Eu acho que é preciso começar a discutir isso nos bancos acadêmicos brasileiros, ao invés de "varrer a sujeira para baixo do tapete", como muitas vezes fazemos. É preciso discutir políticas de orientação, detecção e até mesmo, de punicação para a cópia. É preciso debater sobre o que fazer quando algum artigo publicado em alguma revista é denunciado como cópia. É preciso discutir políticas de publicação com maior seriedade. E é preciso, sobretudo a conscientização: Fonte é uma coisa. Cópia é outra.
por raquel (09:56) [comentar este post]



Comentários
Alessandra (outubro 25, 2008 11:24 AM) disse:
parabéns e obrigada pelo post muito útil e instrutivo. ;)
marcia (outubro 25, 2008 11:39 AM) disse:
Raquel, contrate um BOM advogado e entre com um processo, bem fundamentado, pedindo indenização por danos morais. vc sabe que o governo vai ser defendido pela Procuradoria-Geral da União e que isso vai levar anos, mas não importa. entre. é inadmissível que o governo institucionalize o roubo da produção acadêmica.
a pergunta é: o que podemos fazer em termos mais gerais? se um orientando publica um texto plagiado, o orientador deveria saber e condenar. os PPGs deveriam ter comitês de ética que pudessem desligar estes alunos, depois de uma denúncia confirmada. na graduação, eu reprovo alunos que copiam, mesmo que tenham sido duas frases. isso exige um esforço grande de busca, mas faço sempre.
o problema é que a Internet trouxe esta possibilidade. há sempre dois lados em tudo, e este é o lado ruim. o que fazer?, diria Lenin. não sei exatamente.
vivemos uma crise ética na sociedade. uma grande, terrível e catastrófica crise ética.
Renato Targa (outubro 25, 2008 2:07 PM) disse:
Pois é, que moral o governo pode querer ter ao combater a pirataria na Internet?
Suzana (outubro 25, 2008 2:26 PM) disse:
Oi Raquel
Lembra qdo te contei daquele caso que aconteceu comigo. Sensação ruim encontrar o teu texto roubado desta forma.
Andei pesquisando na ocasião a possibilidade de processo, mas não fiquei satisfeita com o que recebi de orientação.
abraço!
penkala (outubro 25, 2008 4:09 PM) disse:
concordo contigo totalmente, mas acho que é necessário mais radicalidade, porque o problema do não estímulo ao original e o, pelo contrário, estímulo à cópia não é, na minha opinião, o problema. quando alguém publica um artigo ou quando gente do governo pega um artigo publicado na internet (e muito provavelmente fruto de uma apresentação em congresso), não é o velho hábito de copiar que está em jogo. esse tipo de situação de cópia acontece com gente que sabe muito bem o que está fazendo. e comete esse crime com a cara de pau de quem sabe muito bem que ninguém faz nada SÉRIO em se tratando de justiça. roubar pedaços de uma obra, uma frase ou ela inteira pra usar em benefício próprio é atestado de mau-caratismo. acho que junto com o estímulo ao pensamento original se deve pensar em começar a mostrar (porque CARÁTER não se ensina, infelizmente, na escola) pros educandos que plágio é crime, é vergonhoso e é passível de punição séria. e mostrar, claro, a tal punição séria, que não pode ser a que temos hoje: totalmente no plano das idéias.
e reforço o que a Marcia disse: mete na justiça. não porque vás, tu mesma, ser JUSTIÇADA, mas pelo simples fato de mostrar: isso não vai passar batido.
Bruno (outubro 25, 2008 7:07 PM) disse:
a pergunta é, o que vais fazer quanto a este plágio?
Raquel (outubro 25, 2008 8:59 PM) disse:
Bruno: Não sei ainda, pedi uma retratação, vamos ver o que vao dizer. :P
camila (outubro 25, 2008 11:02 PM) disse:
Raquel, eu venho nesta batalha! é uma luta árdua, cansativa e necessária. Ano passado, uma professora da UNEB passou pelo mesmo problema. Copiaram a dissertação dela de mestrado e publicaram em um documento do MEC que discute a inclusao social. Foi um bafafá. Ela entrou c processo, descobriu-se que quem assinava a produção eram professores DOUTORES de uam universidade do Rio, mas todo mundo fugiu da responsabilidade. Nao sei o final do caso, mas sei q é estarrecedor pensar que disponibilizar uma informação e produção possa favorecer este tipo de ação. É inadimissivel de alunos, quanto mais do governo. Esta semana tive um problema na minha turma tb, pois na produção de um artigo p finald e semestre, um aluno copiou trechos de uma rtigo da net, na integra, muitos paragrafos. So esqueceu de ver q este artigo era meu :-).
Fa (outubro 26, 2008 12:50 PM) disse:
oi Raquel
Concordo com você e nunca entendi um professor que dá nota diferente de zero por textos cópiados.
Afinal, com o copiar e colar nem o trabalho de escriba existe mais, né?
Outro exemplo: um artigo meu, "O silêncio sobre o ACTA" publicado em 22/09 pp, no http://xocensura.wordpress.com/2008/09/22/o-silencio-sobre-o-acta/ foi copiado totalmente em
http://www.revistaforum.com.br/sitefinal/ColunistasIntegra.asp?id_artigo=4405
sem citação de autoria e sem link.
É da Revista Forum
Acho que esqueceram um "Xo Censura" antes do nome do arquivo. Por esquecimento, mesmo.
O Caribé deixou um comentário lá em 8/10. Até agora não houve nenhuma mudança.
Fátima Conti
26/10/2008
Everton Maciel (outubro 26, 2008 6:10 PM) disse:
citando, não tem problema. Só veículos impressos não tem perdão, estamos falando do trabalho de pessoas e do lucro de outras.
carlos rangel (outubro 27, 2008 8:24 AM) disse:
Olá, Raquel. É preciso mesmo protestar, não deixar passar em branco. Este é um sítio que talvez possa ser útil em casos futuros, ele pesquisa cópias de seus textos em outros sítios. http://copyrightspot.com/
Lilian Starobinas (outubro 27, 2008 12:12 PM) disse:
Lamentável. Em caso do serviço público, deve haver punição severa por uso sem citação. A gente fica em cima de aluno de Ensino Médio e Graduação por conta disso, vai deixar passar essa usurpação por parte de gente com cargo? Vergonha.
Jmoura (outubro 27, 2008 4:53 PM) disse:
Oi Raquel, leio seu blog e o utilizo como fonte de pesquisa com os meus professores,mas sempre me preocupo em citar a fonte e lembra-los de fazer o mesmo. Plágiar trabalhos alheios é crime. Essa assunto do qual vc trata é chocante e merece destaque, reafirmo o comentário da Camila, essa não é a primeira vez o governo federal se apropria dos escritos de professores para compor documentos e não colocam referências... Até quando vamos ficar calados? Vamos ver essa situação se repetir com colegas, conhecidos e professores quantas vezes mais?
Jmoura (outubro 27, 2008 4:54 PM) disse:
Oi Raquel, leio seu blog e o utilizo como fonte de pesquisa com os meus professores,mas sempre me preocupo em citar a fonte e lembra-los de fazer o mesmo. Plágiar trabalhos alheios é crime. Essa assunto do qual vc trata é chocante e merece destaque, reafirmo o comentário da Camila, essa não é a primeira vez o governo federal se apropria dos escritos de professores para compor documentos e não colocam referências... Até quando vamos ficar calados? Vamos ver essa situação se repetir com colegas, conhecidos e professores quantas vezes mais?
sinkos (outubro 28, 2008 8:32 AM) disse:
Nossa, deve ser horrível quando isso acontece. Estou usando vários artigos seus na minha monografia, mas tenha certeza de que seu nome está em todas as páginas em forma de citação hehe. Descobri hoje que você irá lançar o livro blog.com na Campusparty. Aguardo ansiosamente! Pena que o livro não sai este ano, assim eu poderia utiliza-lo na minha monografia. Parabéns por tudo, saiba que você é uma fonte de inspiração e um modelo de profissional para mim. Sorte com este caso.
Raquel (outubro 28, 2008 12:51 PM) disse:
Camila, Lilian e Fá: Obrigada pelo apoio, é bem isso que vocês colocaram - a impunidade que ronda o plagio.
Everton: SE a fonte fosse citada. Mas quando até o governo esquece a fonte, estamos ralados!
Jmoura e sinkos: Obrigada pelo apoio! :)
Luciano Carôso (outubro 28, 2008 6:16 PM) disse:
Cara Raquel:
Sou seu leitor há algum tempo sem, até o momento, ter me manifestado. Quero lhe dar os parabéns pelo sério e interessante trabalho científico. Sou doutorando em etnomusicologia pela UFBA e nesse momento estou na Universidade Nova de Lisboa fazendo meu doutorado sandwich. Recentemente apresentei um trabalho em Salamanca, num congresso internacional de etnomusicologia, sobre práticas musicais em comunidades virtuais, onde cito o seu artigo "Comunidades Virtuais: Uma Abordagem Teórica", obviamente dando crédito à fonte :-). Acho que a questão da propriedade intelectual deve ser um dos pontos principais das discussões acadêmicas acerca do ciberespaço e sua irremediável tendência para a reciclagem, a bricolagem, a samplertrofagia. A musicologia tem negligenciado por demais essa discussão, o que me parece bem insensato no contexto global atual. Satisfaço-me bastante, por conseguinte, que a esteja fomentando por aqui.
Como você bem disse, quando é o governo que "esquece" a fonte num edital publicado em seu próprio site, a coisa preocupa. Acho que deve realmente, não como uma causa pessoal, mas tomando-a como emblemática nessa questão em nosso país, levar à frente o debate e, por que não, um processo, que seria bem pertinente.
Você notou que o documento é assinado por várias pessoas (diretora, assessor, cordenador...)?
Conte com o meu apoio.
LC
Leandro Cianconi (novembro 12, 2008 2:14 PM) disse:
Oi pessoal,
Concordo com toda crítica ao plágio, e principalmente, à falta de estímulo ao pensamento crítico. Mas ao tocar no assunto, é preciso ver o outro lado da moeda, ou seja, a forma como os jovens encaram conteúdo, informação e conhecimento. Vai uma indicação de leitura: http://thepiratesdilemma.com
Abraços